De uma história de amor

Zélia Gattai foi uma grande escritora, sempre acompanhada do aposto “mulher de Jorge Amado”. Achismo infinito meu, parece que isso não a incomodava, ao contrário, era motivo de orgulho.

Por razões profissionais estive por 3 vezes na casa do Rio Vermelho, casa dela e do marido, sempre perto do dia de Iemanjá, 2 de fevereiro

Na primeira vez, em 2000, o marido já estava a adoecer. Foi quando fiz a foto dela com o cachorro Fadul lendo um capítulo recém-escrito do livro que não seria terminado ou publicado. Ela falava também das histórias dela com o marido, desse banco ser um local especial na casa onde eles receberam tanta gente.

Em 2001, a segunda visita. Ela nos recebeu e com generosidade saiu contando histórias da casa e do casal. Zélia era também fotógrafa e com sua Leica – que ela orgulhosamente mostrou – produziu “Reportagem Incompleta”, uma fotobiografia da vida de Jorge (“Para Jorge, esta reportagem que é dele, com amor”) e por conseqüência da dela. Ao final do passeio ela foi para um quarto e voltou com 3 exemplares para nos dar de presente.

Em agosto daquele ano ele faleceu…”Prosseguia, desde 2001, essa coisa estranha de «continuar por cá, a respirar e a viver sem Jorge»” ela disse a um jornal português.

Começou 2002 e lá fomos nós visitar Zélia. Era Fevereiro, perto do dia de Iemanjá. Ela conversou delicadamente conosco e nos contou chegou a datilografar para ele de modo que Jorge não se entregasse à tristeza. Quando ele não saia mais do quarto, ela decidiu não sair de perto dele. A gravação foi rápida. A filha estava lá, conversando com a mãe. Nos contou da tristeza, da história dela apoiar ACM publicamente, e como andava a vida. Zélia entrou no papo (e era boa de papo!) e começou a falar aquelas histórias todas, histórias de livros, dedicação e de paixão. Saímos todos sorrindo, emocionados.

Histórias que ela levou com ela até o fim. Com sorte a casa do Rio Vermelho, seus ladrilhos e suas histórias que marcam memória, vão virar mesmo um centro cultural…Lá ela está em cinzas ao pé da mesma árvore onde estão as cinzas do marido Jorge. Cumplicidade boa de ouvir contar…

FOLHA – A senhora sempre disse que o casamento com Jorge Amado foi perfeito. Vocês nunca brigaram, nunca tiveram crises?
ZÉLIA – Nunca briguei com ele. O que havia em nossa convivência era graça, cumplicidade, amor e respeito. E, seis anos após a sua morte, ainda o vejo todos os dias. No começo deste ano, quando estava novamente na cama de um hospital, senti uma mão tocando o meu tornozelo, subindo levemente até a panturrilha. Aí, sem que nada mais acontecesse, a sensação foi interrompida. Contei o que senti para o [escritor] João Ubaldo [Ribeiro], que também estava internado no mesmo hospital. E ele me respondeu: “Zélia, a mão não era do Jorge. Se fosse, ela não se contentaria em parar na panturrilha”.

2 Respostas

  1. amor..que lindo, que benção ir na casa deles…. e que bom que você tá de blog novo…ta com as cores de Iemanjá aqui, gostei bastante.
    E to adorando a blosfera! Amo t.

  2. tout est bon dans notre monde

    j’adore vos mots,
    papillon papillon

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