Hamlet

Teatro é uma arte curiosa: retrato de uma época, palco para homens purgarem culpas, espaço para gente viva empostar a voz, arte morta e ultrapassada. No Século XXI, o da banalização da imagem, todas essas opiniões convivem. E depois são engolidas por aquilo que se vê.

Hamlet é peça de Shakespeare.  Confesso pouco contato com o texto além de  “ser ou não ser”, “há algo de podre no reino da dinamarca”, uma caveira na mão do coveiro e o quarteto fantasma-filho-rainha-rei. Isso foi uma grande vantagem.

Hamlet, o filho benditamente louco que a Dinamarca pariu, nos convida a seguir o percurso de sua demência e de seus atos esganados, enquanto expõe a retidão para cada passo que toma. Além disso, é uma declaração de amor ao teatro, já que é através de uma interpretação que a história começa a verdadeiramente tomar seu rumo.

Pode ser que nem todo Hamlet seja assim, mas o que está em cartaz aqui em SP é. A loucura e a razão são entregues de bandeja forçando o espectador a ficar estarrecido na cadeira. E a pensar.

Wagner Moura, aquele que dá credibilidade à campanha de loja popular, que nos brinda com o inesquecível vilão de novela das oito – até para quem não é noveleiro; que brilha no cinema, como Capitão Nascimento tem carisma. E culhão. Porque resolveu no meio desse furacão ser Hamlet. Personagem que dizem, põe um ator à prova, algo que os grandes atores devem fazer entre os 30 e 40 anos, mostrando maturidade e interpretação.

Ator no século XXI é como apresentadora de TV, qualquer um quer e pode ser. E são tantos, de Malhação `a Mutantes, que esquecemos que existe um bom ator (assim como bons apresentadores).

Wagner em cena escancara que ser bom ator não é para qualquer um. É para alguém que entenda que existe nuance, angústia e dificuldade. Que a voz pode ser escada para a construção de um magnífico personagem. Que o corpo e suas extensões são canais para o prazer de representar. O grande ator é um atormentado por natureza e definição.

E tem de ser muito atormentado para decorar e interpretar e sentir os sem número de falas – pelo que soube, mais de 1500. E além disso sentir que aquelas frases enormes, aquele universo, também te pertencem.

Não é questão de acreditar ou ver, é a arte da empatia, o convencimento acreditado de que aquele que está na sua frente é de fato tudo aquilo que diz. Não é figurino que te faz sentir aquilo como seu, é a maneira como o ator se porta. Teatro é exposição, a pessoa na sua frente falando e babando “like a mad man”, quase cuspindo, e você mal pisca. Aquele realismo vira fantástico pela sua veracidade.

Quem é rococó vai para os suntuosos figurinos, as músicas retumbantes. Não sei se isso é necessário e chego a acreditar que atrapalha a arte da abstração, que é o melhor que o teatro pode te oferecer. Te tirar do espaço platéia-palco e te convidar a participar.

Quem já é tão explicito em gestos e palavras e ações e intrigas como sheakespeare, pode ser despido dos luxos e vernizes. Incrivel e impecável, os atores são parte do cenário, todo aberto. Aliás, o elenco é o grande motivo pelo qual nenhuma suntuosidade em cenário e figurino são necessárias nessa montagem. Eles são o espetáculo. E há de se dizer que o diretor executa primorosamente uma grande idéia que envolve a presença e a ausência dos personagens em cena, mas não conto aqui para não estragar.

Esse Hamlet faz um convite a você gostar dessa arte, que virou marginal pela banalização e falta de cuidado com o que as pessoas são obrigadas a assistir. Porque teatro quando não é muito bom, é chato pacas. Mas Hamlet me lembrou que teatro quando é bom, é do caralho.

*a autora do texto avisa que nunca viu nada do Zé Celso. E tem um certo orgulho disso.

**Hamlet está em cartaz no teatro Faap – r. Alagoas, 903, São Paulo, tel. 0/xx/11/3662-7233 Quando: Sex. e sáb.: 20h Domingo: 18h. Até 28/9

*** fotos gentilmente cedidas por João Wainer

Uma resposta

  1. cat! acabei de ver o documentário na tv sobre a montagem do espetáculo e me emocionei a beça e pensei: quando for pra sp, vou chamar a rê pra ir ver comigo esta peça. aí fui dar minha passeada diária pelos meus blog queridos e descobri que vc já viu! e que adorou! que bom! vou ter que encontrar outra amiga que queira ir ao teatro comigo! e aproveita a grécia, come muita moussaka por nós! Luv Dri

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