Um cheiro estranho no ar

Acordo e ainda está frio. São quase sete horas da manhã, muita gente já no batente, madrugada para mim. O programa terá como tema “Meio Ambiente” e a primeira incursão é um passeio de barco pelo rio Tietê.

*simpática vista do local de chegada

Somos recebidos por Douglas, um dos responsáveis pelo Navega SP, que explica preferir que o rolê seja chamado de esperiência ao invés de passeio. Rapidamente entendo o porquê. O cheiro forte penetra as suas narinas sem pedir licença. O sol esquenta desde cedo a cabeça e a água preta que te cerca, trazendo clara a imagem do grande espaço morto.

Olhava incrédula para aquela água que é preta da borracha que queima no asfalto e é levada para o rio pelas chuvas. Somadas aos detritos ela dá a cor do Tietê. De perto o rio fica mais feio, mas mais vivo. Ver o rio de perto lembra que ele é mesmo um rio, e não um pedaço qualquer da sua cidade. Aquele rio, assim como a cidade que o cerca, é seu. Então você tem de se apropriar. Navegando, sentindo o odor forte (que fez cair a nossa produtora) fica mais fácil perceber que há algo que você precisa fazer por ele. Porque quando você for, o rio continuará lá.

São diversos os problemas no rio: é a sujeira que é jogada aleatoriamente pela cidade e que acaba ali – garrafas de plástico, embalagem de salgadinho, lata de óleo – isso é fichinha comparada a cidades da Grande São Paulo que jogam seu esgoto sem tratamento no local.

Já foi encontrado no Tietê um sem número de capacetes de motoboy, muitas armas (imagina então a quantidade de corpo de desova), sofás e um fusca. Um carro inteiro foi jogado no rio e encontrado quando o fundo foi escavado para aumentar a calha.

*o projeto leva crianças da rede pública para conhecer o rio

Navegando pelo Tietê percebi que iamos muito mais rápido que os carros que esperavam sua vez no congestionamento na marginal. Percebi que ali jaz um rio que foi onde meu avô praticava remo e que se fosse recuperado, poderia ser onde meu sobrinho praticaria remo também.

Saímos do barco e o Tietê continuava impregnado em toda a equipe. Na pele, nos olhos e no nariz, que provavelmente nunca esquecerá aquele odor. Um cheiro de podre misturado com descaso, mas um cheiro que teima em persistir para te lembrar que não dá para ficar de braços cruzados.

*no ar no Urbano dessa semana, 5afeira, 21h15

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A Casa dos Cariris

A Casa dos Cariris

Mexicanos que moram em São Paulo, Lurdez Y Felipe abrem sua casa para almoços muito especiais. Excelentes comidas e estórias fazem parte da receita, e levam quem chega à Casa dos Cariris até o México em viagem non-stop.

casa entrada

Ela era jornalista gastronômica em seu país de origem. Ele já foi adido cultural do México em São Paulo. Sua casa virou esse centro cultural que exibe a verdadeira cozinha mexicana, numa travessia de sabores guiada pelo bate papo com cada um que lá está.

Dos chilis na cozinhas às caveiras espalhadas, passear pela Casa dos Cariris é uma experiência e tanto. Só que não é assim, só chegar e ir. Para viajar nessa companhia é preciso ter sorte para ser convidado e conseguir os assentos. A Casa dos Cariris não tem hora certa para abrir. Um email avisa: haverá almoço no domingo ou jantar na sexta. Amigos, amigos dos amigos e aqueles que ficaram recebem a sorte na caixa postal.

no barco

Se lhe acontecer, corra para responder: a sala é integrada com a cozinha mas não é para muita gente. Nem poderia. Ali é lugar para enfeitiçar os sentidos. Conversar por trás dos pratos, sorrir diante de brindes, deslumbrar os sentidos com cheiros, cores e o cuidado no preparo. O melhor couvert para qualquer refeição. Daquelas de lamber os dedos no final.

roda

Além da mesa farta, Felipe Y Lurdez distribuem feitos que adoçam, azedam, amaciam. Sobretudo histórias que trazem o que a comida não nos deixa saber. Histórias mexicanas, histórias que se passam por todo o mundo. Já fizeram de um tudo. Lurdez ama os chilis (as pimentas), Felipe ama brincar com o tempo, como mostra esse texto que está na restrospectiva de 50 anos de carreira que acaba de estrear no Museu de Arte Moderna do México

“Manipulaciones Temporales

I.
Como estirar el Tiempo:
a) Assegure que algo vitalmente importante le suceda dentro de no menos de um mês.

b)Levántese temprano todos los días, procurando no hacer nada mientras que espera que llegue el día.

II.
Como estrechar el Tiempo:
a) Haga 21 citas importantes para mañana. Procure que sean tan separadas geográficamente la una de la otra como sea posible.
b) Trate de no fanltar a ninguna.”

Livro Felipe

Se quiser conhecer mais da carreira de Felipe Ehrenberg, clique aqui.

Se você quiser conhecê-los, torça pelo destino e para algum amigo te chamar para ir até lá.
Ou assista ao Urbano hoje (em novo horário, 21h15, no Multishow), que gravamos uma matéria incrível com a dupla.