a furadeira e eu

Nossa relação começou há tempos. Unilateral, é verdade.

Eu olhava. desejava, queria enlouquecidamente ter em minhas mão mas não tinha coragem. Achava que não era para mim.

Pois agora que está aqui, ao meu alcance, eu estou um pouco assustada. O manual diz coisas como:

*Fique alerta, preste atenção no que está fazendo e tenha bom senso. Não use se estiver cansado, sob a influência de drogas, álcool ou medicação. Um momento de descuido ao operar as ferramentas elétricas pode resultar em lesões corporais graves.*
E agora? eu sou distraída por natureza. E ouço música enquanto faço as coisas….às vezes, confesso, até danço….bom, não fala nada quanto a não dançar, acho que posso continuar…

A furadeira, essa ferramenta tão incrível, capaz de transformar minha casa está em minhas mãos e preciso usá-la. É libertadora, sussurando aos meus ouvidos que nunca mais vou depender de ninguém para furar, pregar ou colocar nada.

Sigo lendo o manual com instruções estranhas (vista-se apropriadamente, não faça uso indevido do fio, evite dar partidas acidentais) até chegar em características e montagem. Monto. Sinto que faço parte de algum filme do Tarantino e essa é minha pistola, tamanha a sensação de poder que ela proporciona. Vou começar. Oops, melhor tirar os gatos da sala antes.

Primeira conclusão: a dica para usar protetores auditivos não é por acaso. Realmente faz um barulho danado. Mas o primeiro buraco está lá. Precisa ser um pouco maior. Troco a broca. Fiz um, fiz dois e três buracos e transformeio-os num só. De propósito, aviso, para passar cabos. Minha mão está um pouco dolorida, a cabeça um pouco zonza e o ouvido um pouco surdo.

A sensação de conquista é difícil de explicar. Parece que ganhei algo. Com a furadeira em punhos me senti auto-suficiente, poderosa, será que é a inveja do falo que falava Freud? Nunca quis ser homem –  a não ser na hora de fazer xixi – e agora tenho certeza que é só empunhar a furadeira que tá tudo certo. Posso dominar o mundo. Bom, vou ver agora…ainda faltam dois buracos e pregar o móvel na parede. Não vou deixar o sucesso subir à cabeça e vou seguir buracando. Vamos ver no que dá.

No que deu? O móvel está lá…bem confesso, o segundo móvel. O primeiro caiu depois de colocado. Culpa da má qualidade da loja, juro.

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